Neste 8 de março, o Brasil celebra o nascimento daquela que não foi apenas a “Rainha da Televisão”, mas também uma espécie de bússola moral do entretenimento. Se estivesse entre nós, Hebe Camargo completaria 97 anos.
E, embora sua imagem esteja eternizada pelo famoso “gracinha” e pela opulência que marcou sua trajetória na TV, talvez o legado mais valioso da loira seja mesmo a coragem! Em 1987, em uma bancada majoritariamente masculina e sob o clima tenso do programa "Roda Viva", da TV Cultura, Hebe deu uma verdadeira aula de humanidade que, 37 anos depois, ainda soa surpreendentemente atual!
Na década de 1980, o Brasil ainda engatinhava na redemocratização e a homossexualidade era frequentemente tratada com escárnio ou até como doença. Hebe, que nunca escondeu seu pensamento político conservador e sua posição “de direita”, provou naquele momento que respeito aos direitos humanos não depende de espectro ideológico.
Questionada sobre sua proximidade com o público LGBTQIA+ e a defesa que fazia dessas pessoas em seu programa no SBT, Hebe não recuou. Pelo contrário, enquadrou os entrevistadores. “Por que não defender? Por que eles são piores do que a gente? Não. Eles escolheram ser assim. São seres humanos iguais à gente. Eles têm pai, têm mãe, irmãos, trabalham, pagam seus impostos”, disse ela.
Na sequência, um dos jornalistas retrucou com um comentário carregado de preconceito: “Mas você não acha que, como formadora de opinião, defendendo isso... poderia estar ‘proliferando’, que seja…”. “Não, não, meu queridinho”, interrompeu a apresentadora, visivelmente incomodada.
Com a autoridade de quem construiu uma carreira vitoriosa desde o rádio, nos anos 1940, até se tornar um dos maiores nomes da televisão brasileira (história que inclui até o episódio em que ajudou a buscar equipamentos da antiga TV Tupi no porto de Santos), Hebe sabia muito bem o peso de sua voz. E foi direta ao rebater a ideia de que a homossexualidade poderia ser “influenciada”.
“O fato de eu falar não vai mudar. Ou as pessoas nascem assim ou não nascem. Não é porque a Hebe Camargo falou: ‘a Hebe Camargo falou, então que maravilha, vou ser’. Não. Quem tem que ser, é”, afirmou.
Por fim, ela reforçou que ninguém “se torna” gay por influência externa, trata-se de algo que faz parte da própria pessoa, ainda que a descoberta aconteça ao longo da vida.
“Olha, eu tenho muitos amigos homossexuais, pessoas com quem eu aprendo muito. São pessoas educadas, maravilhosas, com uma cultura que eu gostaria de ter e não tenho. [...] Eu converso muito justamente por causa desse tipo de pergunta que as pessoas fazem, e eles me dizem: não, a gente já nasce. Às vezes demora um tempo para se manifestar”.
Hebe Camargo nos deixou em 2012, mas sua trajetória, que passou por emissoras como RecordTV, Band, SBT e RedeTV!, permanece viva no imaginário brasileiro. Relembrar esse momento neste domingo de aniversário e no Dia Internacional da Mulher é também reconhecer que, para Hebe, ser “gracinha” nunca foi apenas estilo: muitas vezes, foi também um ato político.
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